terça-feira, 27 de outubro de 2009

O tempo de cada um e o tempo de todo mundo


Posso dizer que mudou, o mundo mudou.
Depois do episódio anterior ficou uma sequela. Minha cirurgia durou 3 horas, fiquei na posição ginecológica (!) o que pressionou meu nervo ciático nesse tempo e me deu de presente uma parestesia no pés! Tudo formigando e andar se tornou uma aventura divertida, principalmente pra quem vê.
Agora o ritmo mudou e assim tudo mudou, eu que faço muitas coisas ao mesmo tempo continuo pensando muito mas fazendo, fazendo devagar e o mais interessante é andar pela cidade.
Me impressionou como corremos, isso é fascinante. Eu sei que meu ritmo sempre foi como de todo mundo que eu estava assistindo, e talvez por isso sempre deixei passar essa questão, mas a velocidade é enorme, passamos e nada fica, nem um olhar, nem um cheiro, nada fica, só quando algo nos faz parar, por mais banal que seja o motivo, tem que se parar para ver. E esse tempo me fez parar de maneira compulsória mas prazerosa. 
Ao caminhar devagar  e perceber coisas e pessoas me percebi sendo observada, e muito. Todo mundo que passava por mim teimava em não acreditar que alguém pudesse estar naquela velocidade sem que nada tivesse acontecido, olhavam em volta, voltavam a olhar pra mim com uma cara de literatura,  "Porque coxa se bela? Porque bela se coxa?", um cara interrogativa, quase me jogando pra frente.
Mas nada daquilo me abalava, e nem poderia mesmo, minha condição de passeadora, uma  flâneur compulsória no meio do corre corre me fez pensar no ritmo. Ninguém naquele momento parecia correr, cada um estava no seu ritmo, mas era muito mais acelerado do que o meu e muito parecido com o de todos que passavam por ali. Me perguntei algumas vezes porque a pressa, mas saindo da minha condição de superioridade pela calma (que de calma não tinha nada realmente, era mais um incomodo pela vagarosidade, ops, porque vagarosidade? Outro ritmo, melhor, bem melhor) noto que é um ritmo de conjunto, todos dançando uma mesma música, eu estava ouvindo uma bossa nova, enquanto todos estavam na escola de samba. OS ritmos são bons, e do mesmo jeito. A grande questão é: Quem ligou o rádio? É bom que todo mundo tenha seu ritmo, um só seu, que viva em conjunto com o do outro e faça um bom barulho.
Eu mantenho a calma ... Observar e deixar ver o que a cidade me dá de presente com essa falta de pressa. Prazer total.
As pedras portuguesas... lindas, algumas faltando, os defeitos dos lugares que só estão ali, o caco de vidro no chão que reflete o sol que está finalmente saindo. O calor no corpo.
O olhar de uma pessoa, de cada pessoa: alguns pra mim, outros, os mais interessantes para elas mesmas. E me gritam na imaginação:
- Carro, tenho que trocar de carro...
- Ai, meu ônibus, agora só daqui a vinte minutos!
- Ontem foi bom, mas a de hoje... adoro sexo de manhã.
- 1, 2, 3, 4, 5, 6...
- Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão - balanlanbanbão!
- Cores que começam com a letra F?... fucsia!
- Ser ou não ser..
- Ai coceira... gostozinn
Tantos olhos, tanta coisa, tanta gente, muito bom ser flâneur! Torcendo para voltar ao ritmo mas que a crítica a ele me ajude a encontrar meu ritmo.
O meu tempo
O tempo de todo mundo
Eu no mundo
Eu no tempo

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